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A Cuspidora de Flores.

Juliana sentava sobre seu jardim, esmagando as flores que cultivava, que abraçava e que colocava pra dormir. Quem passava na esquina ouvia os gritos dela –Juliana– quando se arranhava nos espinhos, mas elas –as flores– era quem sentiam a dor. Juliana confortava sua dor com a dor dos outros. Uma dor maior. Isso que eu chamo de se mutilar, deixar de viver seu corpo, esquecer seu próprio nome e passar a regar uma dor longínqua que parece ser mais bonita. Só se ouvia os galhos quebrando. Sentir dor em silêncio é assustador.

Ela pouco sabia da vida de flor. Queria mesmo ser bela como elas, dobrar de sensualidade com o vento, ter relações com qualquer passante de asas. Ninguém provava de sua boca como o colibri fazia com as pétalas vermelhas, como ele profanamente mergulhava de corpo e alma buscando, um milésimo que fosse, de prazer com quem amava, como as flores se entregavam sem retorno. O vento parava para assistir.

Onde estaria seu passante?

Ela matava as flores, destruía seu corpo –e os delas, mas se deixava levar pela ilusão de ser um beijo. O colibri também chorava: “As flores me deixam nu”, dizia, “como se eu as colhesse do peito, como se eu as sangrasse”. Ele era devorado, e não havia assobiador que cantasse algo tão triste para essa hora, nem pontes que valessem a pena pular, nem quadros que cobrissem tamanho ardor, nem tantas pernas para serem arranhadas. Juliana se suicidava um pouco por dia, adiantando sua morte, os créditos finais do filme da sua vida, para salvar a vida de um colibri tão deprimente, choroso, que não tinha forças para combater a sua própria necessidade de vida. E há quem negue o masoquismo do amor.

Houve, no outono, quando as pétalas caíam, quando os espinhos secavam e perfuravam ainda mais as pernas de uma pobre desolada do coração castigado, quando não havia cheiro de jardim, quando o dia amanheceu e anoiteceu para um eterno “grand finale”, houve uma lágrima que regasse os próprios pés, que a jogasse sem reações na parede, que a violasse completamente. Juliana havia sido deturpada por uma sombra. O corpo sentia a própria vida escorrer, como se derretesse, como se desaguasse, como se fosse sugada e levada dentro da noite para nunca mais.

Abriu os olhos para acabar com o sonho que ela mentiu. Enrolada aos galhos, como sempre, perfurada, sangrando, escorrendo uma dor para esconder outra maior.

“Aaaaaaaaah!”, seu grito ecoou. “Aaaaaaaaah…”, continuava a gritar quando pôs pra fora, pela boca, um botão. Vermelho-sangue, cheirando a desejo, tão grande quanto as correntes que a prendia. Assustou-se, mas cuspiu. Uma bela rosa, Juliana, não pude negar. Logo ela, que sempre protegeu o colibri com seu corpo branco de sombra, transparente, frio, agora sente brotar na garganta a maior vilã de seu guardado. Cuspiu três, mas brotavam sete. Dezessete. Quarenta e sete. Uma varanda coberta de rosas vermelhas que velavam a morte da cuspidora de flores. Nesse momento ela também matava o colibri, vomitando o veneno que o entorpecia, que o sugava e o sangrava. Do coração tão puro brotou uma causa de morte.

Antes que a tarde chegasse, Juliana estava enforcada e abraçada pelos espinhos e botões avermelhados de desejo, aos beijos com um colibri que a tomava como flor, e era tomado por ela como amante. Antes que a tarde chegasse, a noite nunca mais viria, nem ao menos para ver um colibri partido em dois e uma cuspidora de flores com um buquê de rosas vermelhas brotando da boca enforcada no próprio sonho. Juliana morreu querendo proteger.

(Adriano C.)


Posted 2 months ago







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Sobre pessoas que nunca existiram


   São as que têm os olhos mais bonitos. Os termos mais bonitos e os sonhos mais bonitos em que você se inclui. As histórias que te fazem chorar. As que comprimem num cubículo o coração inteiro. Por pura provocação. Elas que matam. Elas que escolhem quando partem e quando ficam sem que você siga as pistas. As pessoas que nunca existiram são as que machucam tudo o que existiu. Inclusive, foram as que pintaram sua foto de dourado. Elas mentiram e casaram com o futuro enquanto você ainda era presente. E sufocaram com a raiva tudo aquilo que você queria falar sobre o amor.
     No tempo em que você era cigana, havia um reino simples. Há uma certa mágoa por saber que muito do que foi sentido, e doado, e sugado, e roubado de você… Muito do que você guardava por dentro foi perdido. E eu também já fui cigana, perdi esse espírito liberto por causa das pessoas que nunca existiram. Há uma certa dor quando se pensa, quando se lembra, quando se fala de novo. Uma certa vontade de deitar no chão molhado e chorar junto e imaginar o trem ativo passando pelos trilhos abandonados da cidade. O trem tremendo o chão molhado até fazer a cidade dormir. Mas o trem nem passa mais. E há uma certa ira, uma certa angústia, quando você finalmente entende sobre todas as partidas definitivas.
     Essas coisas que ninguém tem nos bloquinhos de anotações. Às vezes você também deseja não existir só para reencontrar as pessoas que nunca existiram. E a ilusão nos perseguirá por toda a vida mesmo de olhos abertos. É que é preciso fugir para se certificar de que você pode ser esquecido, de que você pode não ser encontrado de madrugada, de que você pode existir sem toda aquela gente que um dia ex. Não ex. Toda essa gente que não consegue viver sem cortar vínculos. Que um dia te coloca um espírito de cigano, mas que na verdade não pensa em dançar. Agora eu sei que essas pessoas não existem no dia seguinte, e nunca existiram. É preciso sumir para ter certeza de que você pode ser apagado. Ficar quieto. A vida por dentro e por fora continua. E você precisa estar certo sobre você mesmo. Mais nada.
Mariane Cardoso 

Posted 2 months ago




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